quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

{Eu li} Bebel que a Cidade Comeu - Ignácio de Loyola Brandão

Bebel que a Cidade Comeu | Ano: 1968 | Brasil
"Houve um momento em que ela era o rosto mais visto em todo o Brasil. Antecedeu Galisteu, Tiazinha, a Feiticeira, como um símbolo sexual. No entanto, o talento de Bebel nunca foi desenvolvido, lapidado. Terminou usada, triturada pela engrenagem da tv (...)."Orelha do livro


Agostinho não gostou do título.
Esse é apenas o segundo livro que leio do Ignácio de Loyola Brandão. Mas desde o primeiro, Não Verás País Nenhum (que li duas vezes), já o considero como meu autor nacional favorito. Acho os livros dele a verdadeira cara do Brasil. Aliás, gosto tanto dos livros dele que não consigo resenhar, haha. Mas, preciso falar pelo menos um pouco da obra desse autor da nossa terra, então vambora!
Tem duas coisas que me fazem admirar mais um livro do que eu admiraria normalmente: a) livros que conseguem retratar em 200, 300 páginas um fim de semana, e b) livros que conseguem retratar em 300 ou 400 páginas uma (ou várias) vida(s) inteira(s). E Bebel tem esse segundo quesito. Conhecemos, em 395 páginas, a vida, o encontro, a decadência e o fim de quatro personagens principais: Bebel, Bernarndo, Marcelo e Dina. E quando esse tipo de coisa é feita com qualidade me encanta muito.

Até mais ou menos a metade do livro conhecemos Bebel que a cidade comeu. Uma menina linda e sexy de sangue espanhol que foi para São Paulo fazer fama na televisão. Isso nos anos 60. Foi ser vedete. Oportunista e bonita que só ela mesmo, logo caiu nas graças dos diretores de tv e do Brasil inteiro com seu rebolado. Estampava outdoors, anúncios, capas de revistas, Bebel estava em todas e em todos os programas como primeira bailarina da tv (é, eu também imaginei ela num programa como o do Faustão...). Quer dizer, se por um lado recebia cartas de admiração e desejo, do outro recebia ameaças e o desprezo de defensores da moral e bons costumes, claro.

Adoro esse cara!
O problema é que, como muitas celebridades que foram e são engolidas pela tv e pela pouca memória do brasileiro, Bebel só sabia tirar proveito da própria beleza, sem pensar que um dia ela acabaria ou enjoaria. Assim, não aprendeu a ser atriz (mesmo seu sonho sendo fazer cinema em Hollywood), não cantava, não estudou e não tinha nada para se segurar quando esse momento chegasse. E a decadência começou até ela perder tudo.

Tá, até aqui talvez esteja parecendo chato, clichê, lição de moral, mimimi... mas a história de Bebel é apenas pretexto para as críticas de Brandão. E para a sua crueldade, muahaha. Adoro a acidez desse autor e como ele é duro com suas personagens. E ao mesmo tempo não posso dizer que ele é frio. Certas vezes me deparo com delicadeza da parte dele, sensível a um sorriso ou algo assim... mas que não tem dó das personagens, ah, não tem.

Tão sutilmente que eu nem lembro onde começou, entram na vida de Bebel as outras três personagens, seus amigos, que citei: Bernardo, Marcelo e Dina. Bernardo é um jornalista caretão de seus 20 anos que quer fazer tudo certinho e ser escritor; Marcelo é o louco da turma, de mesma idade, comunista, revoltado e desafiador da ditadura militar (período que recebe duras críticas do autor); Dina é uma pintora muito nova, de dezessete anos ao fim do livro, que conseguiu subir na vida com ajuda da Bebel. E eles se metem em cada merda... e com todos é a mesma coisa: sonho, frustração, decadência, fim.

Não consegui largar Bebel até que terminasse o livro. A trama é uma tragédia quase cômica envolvente e surpreende o tempo todo com humor e crueldade. Aparecem também muitas caras brasileiras famosas como Roberto Freire e vários cantores. Aliás, quando Bebel está no apartamento de Bernardo, de parágrafo em parágrafo aparecem váários títulos de livros (estou louca para ler Cleo e Daniel, que conheci nesse livro). E isso é só uma das 'interatividades' do livro. Há também várias cartas que Bebel recebeu, escritas de tudo que é jeito, recortes de jornal para nos situar do que acontecia na época a cada início de capítulo e até os bilhetes de Marcelo como prisioneiro.

Sou bastante suspeita para falar das obras do Brandão, mas elas realmente me fascinam e eu tenho vontade de recomendar a todo mundo!

Também em Sobre Café e Livros.

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